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Recheio dividido: um palpite infeliz

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Fonte: Agência Efe

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Adriano Pires, O Estado de S. Paulo

29 de Dezembro de 2018 | 05h00

Por iniciativa da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), foi posta em debate uma proposta com o fim de reduzir o preço do botijão de gás (GLP) por meio do preenchimento fracionado. Chega a ser surreal ver uma idéia como esta, que não resiste às questões mais básicas da viabilidade e eficácia, sendo promovida pela própria agência reguladora, que estabelece as regras de funcionamento do setor e que vem desenvolvendo desde há duas décadas, um marco regulatório, que se tornou uma referência mundial.

Em uma Tomada Pública de Contribuições, da sociedade aberta, a ANP a pergunta sobre “as vantagens esperadas do preenchimento fracionado de recipientes transportáveis de GLP, em relação ao cenário atual”. À primeira vista, pode parecer muito prática: o consumidor toma sua garrafa vazia e de um posto de enchimento perto de sua casa, diz quantos quilos quer, o vendedor injeta o produto e leva-se de novo a bola para a sua casa.

Vamos rever a cena, quadro a quadro. Como se transporta a bola, e como traz de volta? De carro? De ônibus? Nem pensar. De bicicleta, moto, lombo de burro? Qualquer uma destas opções terá o seu custo e risco.

Outro detalhe importante: onde está a revenda fracionada? É impensável que um produto como o GLP obtenha autorização do município e do Corpo de Bombeiros para ser embalado em uma tenda em uma rua residencial ou em um caminhão estacionado na praça do bairro. Há regras minuciosas, Inmetro e da ABNT, para as instalações de envasamento de GLP, que devem ser construídas especialmente para esta atividade, em áreas não residenciais, com um sem número de requisitos de segurança e mantendo a distância de rua. O processo industrial de preenchimento rege-se pelas normas de segurança, que estabelece os procedimentos detalhados para cada etapa da seqüência de atividades relacionadas com este combustível, incluindo os cuidados com o transporte, o acondicionamento, o armazenamento e a reutilização de embalagens.

E a manutenção dos vasilhames? São mais de 118 milhões de botijões em circulação em todo o País, o que obriga as empresas a investir cerca de r$ 700 milhões por ano para mantê-los em bom estado, mesmo sucateando anualmente mais de 700 mil deles, e sua substituição por novas unidades. A bola é seguro, porque recebe manutenção adequada, mas este sistema vai ser impossível se o consumidor encher a bola no posto. Sem a prestação de contas da marca, que existe em botijões embalados em centrais de distribuição, toda a garantia de segurança ao consumidor se perde.

Mas o motivo que me trouxe a estes clientes é o aspecto econômico. Em todo o País há apenas 184 plantas de engarrafamento de GLP, e o motivo é simples: a economia de escala. Mesmo com os custos de transporte para esses locais, embalagem, milhares de garrafas em poucos minutos é mais barato, seguro e eficaz que preencher poucas unidades em milhares de lugares. É absurdo pensar que o recheio fracionado seria vantajoso para o consumidor. Se você quiser colocar uma quantidade menor do que cabe em uma garrafa, você vai ter que pagar por quilo, um valor mais alto do que pagaria em uma garrafa cheia, previamente embalados.

Por falta de escala, o quilograma do gás chegaria mais caro para os bancos de preenchimento fracionado. Portanto, as empresas que apostassem em este tipo de recheio só teriam uma maneira de tirar proveito: o roubo de peso. Os potes vazios têm diferentes pesos e seria difícil para o consumidor, principalmente nas regiões mais pobres, certifique-se de que está levando exatamente a quantia que tenha pago, e seria inviável ter fiscais todo o tempo em cada lugar de enchimento. É assim que se quer resolver os problemas dos menos favorecidos? Oferecendo falsas soluções, em que eles gastam mais, estão mais expostos ao risco de acidentes graves, que envolvem toda a sua família e não têm a garantia de segurança?

Para fazer com que a bola (GLP), mais acessível à população de baixa renda, com segurança, o caminho não é a intervenção, mas uma política liberal, com fraternidade. Sugiro duas soluções: revisão da carga tributária estadual, que hoje é de 12% a 18%, e/ou a criação de um vale-gás.

* DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRA-ESTRUTURA

Fonte: www.sindigas.org.br/novosite/?p=13656

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